"O trânsito de São Paulo só terá solução quando houver uma decisão política que mude culturalmente o cidadão, fazendo com que ele opte pelo transporte público em detrimento ao transporte individual." Esse é o pensamento do economista e especialista em urbanismo, Ciro Biderman, da Fundação Getúlio Vargas e do Massachusetts Institute of Tecnology (MIT). Ele conta, na entrevista publicada hoje (14) pela Folha de S. Paulo e reproduzida abaixo, que os corredores de ônibus (que a administração Serra/Kassab só se deu conta que existem agora que nos aproximamos da eleição) são mais baratos e tão eficientes quanto a ampliação do metrô. Ele lembra que esse modelo já funciona em Curitiba desde a década de 70 e que foi adotada com sucesso em Bogotá. Nos últimos dez anos, a capital colombiana passou do caos no trânsito ao fim dos imensos engarrafamentos, porque mudou a cultura sobre o transporte urbano. Hoje, Bogotá tem o maior índice de deslocamentos em transportes coletivos da América Latina (85% dos habitantes usam o sistema público de transporte). Leia a entrevista a seguir:
FOLHA - Por que São Paulo chegou a esse grau de paralisia?
CIRO BIDERMAN - Foi por causa das opções de política urbana. O modelo americano de cidade tem uma taxação muito baixa da gasolina, pedágios com preços baixíssimos -em Boston custa US$ 1 [cerca de R$ 1,70], contra oito libras [cerca de R$ 26,60] no centro de Londres- e pouco ou nenhum subsídio para o transporte público. O modelo europeu dá subsídio pesado ao transporte público e impõe uma taxação altíssima para a gasolina. Quando toma essa decisão de beneficiar o carro, você traça o destino urbano da cidade. Nas capitais européias, cerca de 70% das pessoas vão ao trabalho de transporte público. Não tem como a elite fugir dessa regra. Nos EUA, com exceção de Nova York, quando 15% vai ao trabalho de transporte público, já é um índice alto. São Paulo fez uma opção americana e só não está pior porque somos pobres. Bastou a renda crescer um pouco para chegar perto do caos.
FOLHA - Cidades como Goiânia e Salvador têm o mesmo problema. O urbanismo brasileiro fracassou?
BIDERMAN - Talvez seja um pouco radical dizer que o urbanismo todo brasileiro deu errado. Mas, olhando por esse lado, você poderia fazer essa afirmação. É incrível como os urbanistas brasileiros, com exceções, ignoraram o transporte público. Pegue a USP na zona leste: colocaram a universidade num lugar que não tem transporte.
FOLHA - Virou lugar comum dizer que a solução é fazer metrô. O que se faz enquanto ele não fica pronto?
BIDERMAN - É curioso que os corredores de ônibus de Curitiba, dos anos 70, não tenham virado lugar-comum. Em Bogotá, eles fizeram uma opção radical pelos corredores.
FOLHA - Como?
BIDERMAN - Como eles não tinham como bancar o metrô, fizeram corredores de ônibus. Nenhum urbanista de lá nega que imitou Curitiba. Hoje, 85% das pessoas vão ao trabalho de transporte público, o que não é usual na América Latina.
FOLHA - Por que São Paulo é tímida no uso de corredores?
BIDERMAN - Corredor não está no imaginário da população. Quando se fala de Minhocão, muita gente pensa em derrubá-lo. Mas ninguém fala da possibilidade de transformá-lo num corredor, com ônibus elétricos, sem barulho. Em Bogotá não é só o TransMilenio. Eles aumentaram as calçadas, fecharam ruas. Um dia por mês é livre de carros. Para implantar o transporte público de verdade, você precisa de um choque cultural. Bogotá mostra que é mito essa idéia de que, na América, ninguém abandona o carro.
FOLHA - Pesquisa Datafolha aponta que 74% dos paulistanos rejeitam o pedágio urbano. O prefeito deve atender essa demanda?
BIDERMAN - A longo prazo isso é uma catástrofe para a cidade. É óbvio que 74% são contra. Até os mais pobres estão comprando carros, porque é um benefício gigantesco em um lugar como São Paulo. Você não consegue andar na cidade. Eu moro na praça Roosevelt e viria andando até a FGV, na [av.] 9 de Julho. Mas, da minha casa para cá, é horrível para pedestres. Não é só o transporte público que não funciona. O transporte para pedestres e o de bicicleta não funcionam. Não há alternativa ao carro. É um erro atribuir às pessoas a decisão de usar carro, porque existe uma decisão política anterior.
FOLHA - São Paulo não pára de crescer na periferia, enquanto prédios na área central estão abandonados. Dá para reverter esse quadro?
BIDERMAN - A degradação é perfeitamente reversível. Depende de decisões políticas. Você não pode pensar o centro como um bloco único. Nem tratar usuários de crack como um problema urbano. É um equívoco, um problema de saúde pública.
FOLHA - A prefeitura diz que, sem demolir 23 quadras da cracolândia, o mercado não se interessaria pela área. Faz sentido?
BIDERMAN - Tem uma lógica por trás disso. O que gera a decadência dos centros históricos é o fato de que o custo para demolir e construir é maior do que simplesmente construir um edifício novo, porque há o custo da demolição. Para contornar esse problema, basta cobrar menos pela terra. O que há de novo nessa equação é que, a partir dos anos 80, em Nova York , as pessoas passaram a reciclar prédio antigos. Eles perceberam que edifícios antigos tinham um grande apelo para o setor de serviços. O Soho é dominado por galerias e lojas.
FOLHA - Você acha que esse valor subjetivo do antigo será incorporado pelo mercado brasileiro?
BIDERMAN - A mesma madame que faz compras no Soho, se tiver segurança, vai achar "cool" comprar na Luz. A Bowery [rua de Nova York] era uma boca de drogas há dez anos e, agora, tem o New Museum, mas tem as lojas que vendem artigos para bares. Obviamente, tem de haver algum tipo de subsídio para as lojas irem para esses lugares.
FOLHA - Governos do PSDB gastaram R$ 100 milhões em prédios para a cultura na região da Luz, como a Sala São Paulo e a Pinacoteca. Por que a área continua degradada?
BIDERMAN - O que você precisa é atrair residentes. Uma parcela desses R$ 100 milhões deveria ter sido usada para atrair moradores. Há um erro dos arquitetos que reciclaram esses monumentos: todos foram construídos fechados neles próprios. São ilhas. Você vai à Sala São Paulo e tem um estacionamento sem o menor sentido. A pessoa deveria ir à Sala São Paulo de transporte público.
FOLHA - O foco exclusivamente na cultura está errado?
BIDERMAN - É claro. É uma pena que parte dessas obras seja do Paulo Mendes da Rocha. Tenho uma grande admiração pelo Paulo como artista. Mas, na Luz, faltou um pensamento urbano. Depois, tentaram integrar a Luz à Pinacoteca, mas é tudo muito tímido.
segunda-feira, 14 de abril de 2008
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Um comentário:
Não acho que ter ou usar o carro seja o problema dos grandes centros, principalmente São Paulo.
O maior problema de todos, como em todas as áreas, é o descaso do poder público.
A constituição federal, que é a lei magma de um país democrático nos garante o "direito de ir e vir", e isso implica que posso exercer esse meu "direito" a qualquer hora e de qualquer forma!
A mesma constituição determina que o PODER PUBLICO tem o DEVER de proporcionar aos cidadãos os meios para que possam exercer seus direitos, mas ao contrário disso, os cidadão são punidos com alegações de que o bem da coletividade descaracteriza a constituição! Ora! Porque o poder público não cumpre com seu dever constitucional? Se isso ocorrer não haverá motivos para alegações de que o rodízio municipal de veículos é uma medida tomada para o bem da coletividade?
A solução para as metrópoles está sim no investimento em transporte público, metrô, trem, ônibus, etc., mas acredito que a construção de novas vias e reparo de qualidade nas vias antigas, ao contrário do que temos hoje! Ruas com tantos buracos que dirigir por elas te habilitam como fazer um rali internacional, também ajudarão muito! Nenhum país miserável da América latina tem ruas tão ruins como às de São Paulo!
Bogotá, na Colômbia, tem a maior ciclovia da América Latina, quem já andou por lá sabe que uma obra assim resolve, ao menos em parte, e em pouco tempo o problema do transito em qualquer capital do mundo com um investimento minúsculo, se comparado às obras grandiosas que querem fazer.
Acho que na verdade nosso governantes são grandes incompetentes, prefeito e governador são dois idiotas sem nenhuma vontade política de resolver o problema sem onerar o povo que já paga tantos impostos.
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