A queda de parte da estrutura do Expresso Tiradentes, nome com o qual a gestão demo-tucana rebatizou o Fura-Fila de Celso Pitta, foi mais um ingrediente no prato indigesto em que se transformou o trânsito da capital paulista. Centro financeiro nacional, São Paulo tem hoje a maior frota de veículos de todo hemisfério Sul. São mais de 6 milhões de automóveis, numa proporção absurda de quase um carro para dois habitantes. Isso para não falar das motocicletas, ônibus, caminhões e dos milhares de veículos de outras cidades que diariamente cruzam a capital em todos os sentidos.Ao longo de todo mês de março, quando os engarrafamentos gigantescos ganharam destaque maior nos noticiários de TV e nas páginas de jornal, analistas das mais variadas especialidades (urbanistas, engenheiros de trânsito, ambientalistas, entre tantos outros) foram quase unânimes no diagnóstico do problema: faltam planejamento e transporte coletivo eficiente para levar aos ônibus e ao metrô boa parte dos que hoje usam o automóvel para se locomover na cidade.Ao contrário disso, o que vem ocorrendo é a diminuição constante, ao longo das últimas quatro décadas, do percentual de pessoas que usam o transporte coletivo na capital paulista. Em 1968, quando São Paulo tinha uma população quase cinco vezes menor que a atual, 68% dos deslocamentos urbanos na capital eram feitos através do transporte coletivo. Hoje, esse índice não chega a 47Nos últimos 40 anos, São Paulo tem priorizado o transporte individual ao coletivo. Estão aí as centenas de quilômetros de avenidas, elevados e marginais construídas nesse período, em contraposição aos 79 quilômetros de linha de metrô.O quadro se mostra ainda mais cruel quando se percebe que todo o planejamento de transporte coletivo paulistano contribui ainda mais para concentrar o fluxo de passageiros numa área de apenas dois quilômetros de raio, envolvendo todo o Centro e parte do Centro Expandido da cidade. Atualmente, estima-se que pelo menos 500 mil pessoas vão ao Centro apenas para fazer baldeação nos terminais de transbordo de ônibus ou nas estações de trem e metrô. Trocando em miúdos: diariamente milhares de ônibus circulam pelo centro, aumentando os engarrafamentos, quando boa parte desses veículos poderia simplesmente circular pelas regiões periféricas.
Em horários de pico, cada carro em circulação no trânsito de São Paulo transporta em média 1,5 passageiros, enquanto um ônibus, no mesmo período, leva aproximadamente 60 pessoas. Portanto, não é difícil chegar a conclusão que um ônibus conduz o mesmo que 40 automóveis e que, quanto mais ônibus circulando, menor seria a quantidade de veículos nas ruas. O que ainda as autoridades ainda não conseguiram descobrir é como fazer para que as pessoas troquem o carro pelo transporte coletivo, diminuindo, assim, o volume de veículos em circulação na cidade.Diminuir o tempo dos deslocamentos feitos através dos ônibus e do metrô é uma das soluções para deixar mais atrativo o transporte coletivo, mas para isso é preciso pesados investimentos na implantação de faixas exclusivas para ônibus e de novas linhas para o metrô. Além disso, é necessário também informar melhor o usuário sobre percursos, tempo de viagens em cada linha e os melhores pontos de transferência. Também é preciso tornar o transporte mais confortável e convencer a população que o serviço é eficiente, que tem regularidade, acima de tudo é mais barato.A única entre as muitas administrações que passaram por São Paulo nas últimas quatro décadas a trabalhar nesse sentido foi a de Marta Suplicy, que criou 10 terminais periféricos de transbordo - desafogando um pouco o volume do trânsito na região central -, implantou 67 quilômetros de corredores exclusivos de ônibus (Passa Rápido) e 110 quilômetros de faixas exclusivas para ônibus – diminuindo o tempo das viagens -, promoveu a maior renovação de frota da história da cidade, substituindo cerca de 9 mil ônibus velhos por veículos novos e criou o sistema de Bilhete Único que barateou o custo do transporte na cidade.Nos quase três anos e meio da gestão Serra/Kassab os avanços foram bem menores. Basta lembrar que eles criaram apenas um novo corredor de ônibus, na Avenida Vereador José Dinis, em Santo Amaro. A única ação ampliada foi a do bilhete único, que agora vale também para o metrô. Dinheiro para fazer bem mais a prefeitura dispõe. São mais de R$ 3,6 bilhões disponíveis no caixa municipal para investimentos neste ano, além de outros R$ 380 milhões que estão parados no Fundo Municipal de Trânsito, criado em julho de 2007 e até hoje não regulamentado, o que impede o uso do dinheiro arrecadado por multas.
O problema é que o tempo está cada vez mais curto para o atual prefeito, que já se lançou candidato à reeleição. Por isso a pressa na condução de obras que não foram realizadas nos primeiros anos da atual gestão. A parte do Expresso Tiradentes que tombou sobre o Viaduto Grande São Paulo, no dia primeiro de abril, é um exemplo. Na ânsia de inaugurar a obra, onde foram enterrados R $93 milhões só no trecho que desabou, o prefeito pressionou o consórcio Gutierrez/Carioca para acelerar o ritmo dos trabalhos e, nessa correria, erros elementares podem ter sido cometidos, conforme denuncia um relatório preliminar apresentado pela SPTrans ao prefeito Kassab. Como diz o ditado: "Quem tem pressa come cru". E se o prefeito acha que apressando obras pode obter um resultado favorável no dia 4 de outubro, certamente será surpreendido pela população que, no calor da urna, poderá servi-lo o prato frio da vingança.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
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